A porta parecia escancarar. Mas não, Ulisses batia com veemência e Pedro escutava sua voz. Estava na hora.
Definitivamente, Pedro não estava pronto, estava nu, ainda não escovara os dentes, nem comera nada... "Estou fodido!", pensou.
Pedro então, vestiu suas novas roupas e abriu a porta. Ulisses o alertou: "Te falei para estar pronto às 7h!!! Ainda bem que bati aqui com 20 minutos de antecedência, Pedro. Não podemos cometer mais erros.". "Preciso só escovar os dentes e arrumar as sacolas, me ajuda?" disse Pedro. "É claro, estou aqui pra te ajudar... Vamos lá... Comida, roupas... aqui.". E assim, em menos de 5 minutos os dois estavam saindo pela porta do quarto. Pedro deu sua última olhada para o quarto, como se aquele fosse seu ninho de redenção durante a eternidade de quase dois dias.
A velocidade de pensamento era impressionante: "Como será a viagem não sei caramba será que vão me perseguir oh meu deus preciso de ajuda os bisus não podem me pegar...". A cabeça de Pedro era um turbilhão de idéias e ânsias. O medo ficava cada vez mais intenso e insuportável. Pedro sentiu vontade de pular novamente da janela do quarto do hotel... "Cara, acorda, cara!!! Temos que ir!", disse Ulisses. Pedro então se ligou novamente, estava viajando nas idéias longínquas de seu substrato cerebral.
"Por aqui, Pedro.", disse Ulisses. Eles estavam entrando no estacionamento do hotel, que por sinal, estava lotado de carros importados e de grande porte. Estavam num hotel de luxo, no mínimo, 4 estrelas. Se bem que o quarto não era lá essas coisas... Mas não importa.
Pedro se viu correndo nas janelas dos carros à sua volta. Ulisses dava passos largos demais que Pedro não conseguia acompanhar. Suas vistas começaram a atiçar movimentos repentinos e desastrosos como sintomas de ansiedade física e psicológica.
"Pedro, preciso que respire fundo. Vamos passar por uma situação desagradável, mas é necessária. No 3, Pedro. 1... 2... 3...Segure!"
Mas nada aconteceu. Pedro continuava ali, parado, no meio do estacionamento. "No 3, Pedro. 1... 2... 3... Segure!" De novo, nada ocorreu. Ulisses desesperou: "Oh meu Deus, o que será que aconteceu? O combinado era agora, às 7h30! Alguém corre perigo, tenho cert..." Mas o desespero foi momentâneo. Ulisses não precisou nem contar, agora, Pedro via que precisava segurar a respiração com toda sua força.
A pequena parte do estacionamento que estavam começava a descer, como um elevador, mas na medida que desciam, a água os rodeava e os tampava. Pedro percebeu que não estava mais com a sua bagagem, ela tinha ficado. Olhou para Ulisses desesperado apontando para cima e sinalizando que havia esquecido algo. Ulisses o acalmou.
Parecia que ficariam para sempre segurando a respiração. Os braços de Pedro começavam a se mover sozinho procurando uma saída no teto do estacionamento, mas eles só encontravam concreto e aço. Foi quando uma onda estranha os puxou para um móvel marinho. A força os puxou até a parede do estranho móvel e depois essa parede começou a girar, girou por 180º e então parou. Estavam dentro de algum lugar, a água começou a ser drenada e Pedro, finalmente, recuperou seu fôlego, juntamente com Ulisses.
A primeira coisa que Pedro disse foi que esquecera sua bagagem. "A sua bagagem vai pelo ar, e nós vamos pelo mar, ou melhor, pelo fundo do mar.", disse Ulisses. Pedro se sentiu extasiado, presenciava ali, um dos maiores resgates da história da humanidade, de acordo com seus livros de história.
O móvel aquático era maravilhoso, por fora e por dentro. Por fora, era uma "estrela" com cinco pontas, cada uma delas responsável por uma função vital. A primeira estrela que Pedro viu, pela janela, parecia ser responsável pela energia, via um buraco em sua ponta e um 'fogo branco' saindo dele. "Deve ser nuclear, ou algo assim, né?", perguntou Pedro. "Talvez.", disse Ulisses. "Já saquei, vocês não podem me falar como funciona isso tudo aqui, né? Para o caso de eu ser capturado?", entendeu Pedro. "Com certeza, Pedro. Mas preciso intimamente da sua ajuda agora. Preciso que use toda a sua habilidade! Responda este questionário aqui e depois me informe as letras que você marcou. É de suma importância." Mas o que Pedro não sabia, era que esse questionário resultava na senha para a saída do "tentáculo" que estavam.
Pedro via um questionário estranho. Com perguntas diversas, sobre física e até mesmo cinema. Respondeu cerca de 24 perguntas, quando Ulisses o chamou: "Tudo bem, já pode parar.", disse. Pedro não respondeu, só achou estranho, porque não teria que responder o restante. Ulisses ia anotando as respostas na mão e então, quando tudo ficou pronto, a sequência começou a ser recitada em voz alta, de maneira clara e simples. "E... B... C... A...", ia dizendo Ulisses.
Quando Ulisses chegou aproximadamente na vigésima questão, ouviu-se um baque. A porta começava a se abrir: cerca de 10 pessoas apareceram no setor paralelo, todas de preto com faixas vermelhas no braço; as mesmas que Pedro vira na rodoviária. Pedro ficou entusiasmado, ainda não sabia como foi que as respostas dele conseguiram abrir a porta, mas não interessava. Pedro queria saber de tudo.
As noções de tempo e espaço começaram a se perder. A velocidade com que deslocavam-se era surpreendente, mas Pedro não sabia medir. Olhava pela janelinha do 'submarino' e via montanhas rochosas imensas passarem rapidamente ao seu lado, de maneira hostil.
Os homens, encapuzados, levaram Pedro à um tipo de quarto, sem falar nada, mesmo com Pedro insistindo muito. Apesar da falta de educação, hora nenhuma os homens seguraram ou obrigaram Pedro à alguma coisa. Mesmo parando e dizendo que não seguiria em frente se não ouvisse a voz dos homens, eles nada faziam. Eram completamente disciplinados ao seu serviço.
O quarto era pequeno, mas interessante. Tinha 2 janelinhas que davam a vista para o tentáculo da energia e outra para um, que, segundo Pedro, "devia ser do comando". A cama era, de certo modo, um pouco pequena. Mas que com certeza o satisfaria pois contava com uma tecnologia diferente, que Pedro certamente desconhecia. O quarto, ainda, contava com um computador, ultra pequeno, e ainda um banheiro e uma TV, ligada às câmeras dos corredores do 'submarino', o qual Pedro chamou de "Grand Revolution Five", em menção à sigla GR5, que o salvara.
Os homens então, falaram. "Você não deve sair até segunda ordem.", falou o primeiro. "We are watching you", disse o segundo. Pedro logo percebeu que haviam estrangeiros à bordo. Restava a Pedro, pensar e fuçar nos equipamentos do quarto. No computador, Pedro não conseguia acessar nenhum arquivo, praticamente eles não existiam. A internet era estranha, ligava-se apenas a sites de notícia e de entretenimento que não exigiam cadastro ou qualquer tipo de identificação. A TV era pequena e só mostrava as câmeras dos corredores, Pedro mudava os canais, e as câmeras mudavam. Ele via a movimentação intensa dos 'homens de preto' nos corredores. Porém, não era capaz de escutar nada.
O tempo foi passando e Pedro foi ficando cada vez mais ansioso. Será que passaria o tempo todo de viagem ali, naquele quarto, sem contato com ninguém? Onde estaria Ulisses, que tanto o ajudou nos primeiros - e difíceis - momentos? As dúvidas eram cortantes, como sempre. O sono, no entando, era anestésico e necessário. Pedro então adormeceu, e as horas se passavam, assim como os continentes...
*Continua no próximo post*
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