A artimanha era clara, objetiva. Porém, Pedro não sabia quando ocorreria mais previsões, era muito surpreendente. Tinha que dizer isso a Ulisses, entretanto, não sabia se podia confiar mais nele. Poderia ser um representante do Bisus disfarçado. "Mas se fosse, não teria lógica me soltarem na praia, me soltaram para encontrar Ulisses, só pode ter sido isso...", pensava Pedro.
A questão agora era: confiar ou não? Pedro tinha suas dúvidas, mas o que lhe restava a não ser confiar?
Decidiu confiar, e não fugir, como Ulisses pedira na previsão.
Pedro se encontrava na frente da janela de seu quarto. Ele tinha que repetir tudo o que ocorrera para que tudo continuasse normalmente. Ele tinha de pular.
O medo tomou conta do corpo de Pedro, a adrenalina parecia desfalcar seus dentes como se fossem martelos de ouro. "Tem que ser agora!", insinuava Pedro. E então, um sentimento estranho e uma vontade de pular imensa tomaram conta do seu corpo, parecia que Pedro não era dono da sua "caixa de carne".
Saltou da janela, viu o chão se aproximando cada vez mais rápido...
Nada. Foi o que aconteceu: Nada. Pedro pulou, mas continuou lá em cima. Parado. Pulou de novo. O chão agora era um imenso quadrante de uma quadra de tênis, ele se sentia como uma bola. Continuou no apartamento. Pedro ria, ria, não cansava de rir. Pegou a toalha, amarrou na janela e enforcou-se. Pedro ficava cada vez mais vermelho. Desesperou-se, começava a se debater como nunca. Será que iria morrer agora? Será que eram imaginações na janela do apartamento?
Foi quando Ulisses entrou correndo pelo quarto. Desamarrou-o. Enérgico e assustado falou: "Ouviram alguém se debatendo aqui nesse quarto! Não sei como foram ouvir, Pedro, esse quarto é muito longe!" "Pelo amor de Deus, você queria se matar?". Pedro contou tudo a Ulisses. Sabia que era uma pessoa confiável, mas não sabia porquê.
"Calma, cara", disse Ulisses. "Você deve ter ficado transtornado por não ter passado todas as folhas do bloco e deve estar imaginando que ele te manda códigos... Quando você passava todas as folhas o que acontecia?"
"Eu ficava feliz cara, só isso. Era como se fosse uma droga pra mim... Não sei o que me deu para esquecer dele aquele dia...", lamentava Pedro."Enfim, ele me provoca. Eu lembro que quando eu dormia, sonhava com ele... Já queria que chegasse o outro dia para poder ficar perto, estranho né?" "Era como se o bloco me controlasse..."
"Era um vício. Porra, cara, nunca vi ninguém falar sobre isso...", sussurrava Ulisses. "Mas cara, o que fez aqueles caras te buscarem numa rodoviária em São José dos Campos e te trazer aqui, em Vitória?"
"Definitivamente, não sei. Eu estou perdido, cara. Não tenho pra onde ir, estou sem dinheiro, sem roupas... Eu estou ferrado, cara." sofria Pedro.
"Fica tranqüilo." disse Ulisses.
E então Pedro viu Ulisses discar o telefone do quarto, alguém atendeu.
"Fala, Ferdinando. Beleza?" (...) "Deixa eu te falar, vou tirar semana que vem de folga... Tô querendo dar uns passeios pelo Rio. Ajeita lá os papéis pra mim. Vou buscar aí amanhã de manhã, certo?" (...) "Então beleza, Ferdinando, até mais cara." despediu Ulisses.
Pedro não acreditava no que estava vendo, só podia ser papel do destino.
"Eu tinha que ter certeza que seria você", surpreendeu Ulisses. "Eu mandei o GR5 te pegar lá em Campo Grande, ninguém sabe disso, nem minha mãe."
"O QUÊ? VOCÊ QUE ME TROUXE AQUI?" gritava Pedro.
"Fale baixo, estão te procurando o tempo todo. Eu estou do seu lado, cara. O GR5 sempre esteve do lado dos acodi's. Estamos te salvando." sussurrou Ulisses, dessa vez mais baixo do que anteriormente.
Pedro corou. Não sabia o que dizer... Ele simplesmente era um tal de 'acodi' que estava sendo protegido por um grupo chamado GR5... "Deve ser mais um sonho", pensou.
"A partir de agora, Pedro, você é visado pelo mundo inteiro. Você tem uma capacidade incrível, que ainda desconhece. Milhões de pessoas são sujeitas a esse teste do bloco, apenas algumas são escolhidas por apresentarem o DNA necessário. Nós, do GR5, o protegeremos de um grupo chamado Bisus, eles têm como objetivo usar os indivíduos portadores do gene 237-X para construção de armas biológicas mentais, para a sua surpresa, essas armas podem matar pela TV, pela INTERNET, ou até mesmo pelo rádio. Mensagens subliminares podem matar pessoas, e o que os Bisus precisam, está dentro de você cara." disse Ulisses.
Pedro não falava. Olhava sem precedentes para a porta, esperando a qualquer momento algum homem entrar e levá-lo, sem qualquer tipo de reação.
"Mas parece que você é diferente, Pedro. Até agora a GR5 teve contato com 12 acodi's, você aqui no Brasil, 3 nos EUA, 2 no Canadá, 5 na China, e até agora, 1 na França. Você é o único que apresentou os sintomas tr4. Você consegue prever o futuro. Mas por enquanto, só eu sei disso. Esses sintomas já apareceram em um acodi há 50 anos, mas ele morreu de Insuficiência respiratória, devido a este mesmo vírus Influenza que circula hoje. Além de prever o futuro, você possui características comuns de todos os acodi's: lê códigos invisíveis." continuou Ulisses.
Pedro continuava calado, era um garoto 'de ouro'. Não sabia mais o que fazer, em quem confiar. Ulisses podia muito bem o estar enganando...
"Se por acaso você estiver previsto isto, por favor, não fuja." disse Ulisses.
Era tudo tão estranho. Se Pedro quisesse realmente fugir, não teria chegado a esta parte da conversa... Isso o intrigava. Resolveu perguntar.
"Por que me pediu para não fugir sendo que você mesmo faz seu presente e seu futuro? Não teria como eu prever a sua fala desse modo... Teria?" perguntou Pedro.
"É porque na minha cabeça, eu iria falar isso pra você, igual falei agora, e você previu isso... E nós, do GR5, fazemos isso, pensamos nesse tipo de fala, com todos os acodi's para sabermos se eles possuem essa sua qualidade de prever o futuro. Daí, quando eu te salvei do enforcamento, teoricamente, já veria que você decidiu não fugir, porém, tenho que completar todas as etapas do que pensei, para que crie uma identidade lógica das suas previsões. Ensinamentos essenciais do GR1, grande grupo."
"Pois não fugi, estou aqui, com você"."Fiz tudo como devia ser feito, caramba, não sei como isso dá certo..." disse Pedro.
"Muito Obrigado, Pedro" disse Ulisses. "O levaremos amanhã de manhã para a base de Montreal, no Canadá. Por enquanto, o lugar mais seguro do momento. Vou comprar mantimentos e roupas para você e trago aqui até o fim do dia. Preciso que fique calmo, vocês, acodi's, estão completamente seguros nos lugares em que estão. Este hotel tem mais componentes do GR5 espalhados e escondidos nos quartos. Caso ocorra alguma situação emergencial fique onde está. E por favor, não se enforque novamente, a não ser que prevista algo que necessite disso."
"Por que comigo?" lamentou Pedro.
"Grandes poderes necessitam de grandes indivíduos, Pedro, você é o cara para isso." contrariava Ulisses. "Te vejo à meia noite. Fique bem."
Ulisses saiu muito calmo, aliás, a tranqüilidade daquele indivíduo irritava Pedro. No entanto, sabia intermitentemente que poderia confiar no tal guerreiro Grego.
Restava a Pedro esperar. Meia noite Ulisses chegaria com mantimentos e roupas para o frio do Canadá. Pedro encarava toda a situação como um pacote de férias, o perigo da viagem nunca passou pela sua cabeça nas 6 horas esperando Ulisses.
Dormiu. Acordou com batidas na porta, era Ulisses. Assim como prometido, eram 00:02. Pedro acordou lentamente e foi observar o que tinha nas sacolas.
"Está tudo aí, Pedro, comida enlatada, bolachas, água e frutas. De roupas, trouxe jeans, blusas de frio, casacos, gorros, luvas, meias e alguns tênis, para você usar, tudo deve estar na medida. O Júlio me ajudou nisso, na entrada desse quarto coletamos seu sangue, sua altura, peso, e fizemos uma análise primária do seu cérebro. Júlio é o responsável por essa parte, ele que instalou o sistema de coleta na sua porta. Tudo tinha que ser assim até sabermos da sua decisão final, de vir com a gente." disse Ulisses.
Pedro resolveu confiar, olhou uma sacola entreaberta com um pacote de bolacha, abriu-a e ofereceu uma a Ulisses, que não aceitou e logo foi se despedindo e dizendo que era para Pedro estar pronto as 7h da manhã do dia seguinte.
O sono veio de maneira instantânea. Parecia que Pedro estava começando a gostar daquilo tudo, mas não sabia o que lhe esperava...
*Continua no próximo post*
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