É madrugada, você está abrindo o portão da sua casa quando percebe um motoqueiro em baixa velocidade com a mão no bolso se aproximando.
Seu coração acelera.
Você fecha os vidros e tranca a porta.
O motoqueiro passa, tira o apito do bolso, e assovia. É o guardinha do bairro.
*
São nessas situações corriqueiras que percebemos o quanto somos paranoicos. Alguns dizem: e com motivo. Estão certos.
Chegamos em um ponto em que o perigo é constante e temos de aprender a conviver com ele. Em muitos casos, ele é tão comum que nos acostumamos demais com isso. Vejam só as casas com cercas elétricas, alarmes e cães de guarda. Tudo isso é encarado como normal e se alguém ousa dizer que é estranho e não é natural, essa pessoa tende a ser questionada.
Temos a seguinte situação: a pessoa estaciona o carro em uma via pública, tranca-o e vai curtir o momento com os amigos. Na volta, de madrugada, o dono do veículo percebe o vidro quebrado e vê que faltam objetos que o pertenciam lá dentro.
A maioria das pessoas quando escutam essa situação tendem a dizer: mas porque você não estacionou em algum estacionamento? A via era movimentada? Porque o seu alarme não estava ligado? Tinha seguro?
E uma das últimas perguntas: você fez o B.O.?
É interessante notar que, certo ou errado, o dono do veículo passa a ser culpado pelo roubo. Ele não tinha colocado o carro em estacionamento, não tinha alarme e a via não era movimentada. O cara fez tudo errado.
Sim, fez mesmo. E até anormal que faça. O normal é existir ladrões que roubam da mesma maneira que nuvens provocam chuvas. Sequestradores existem da mesma maneira que o plantio das sementes. Tudo de ruim ficou muito natural. Tudo ficou comum. E o errado é quem não se protege.
Lutar contra o perigoso passou a ser incomum. O comum é se proteger, cada vez mais, para que o perigo não te 'escolha'. Colocamos cercas elétricas nas nossas casas, gastamos pra isso, e na hora de ajudar um ex-presidiário a conseguir um emprego nos recusamos. Contratamos seguranças e porteiros para os prédios mas não levantamos uma faixa sequer para melhorar o ensino técnico na cidade e região para que pessoas de baixa renda tenham uma capacitação para um emprego razoável.
No fim das contas, nos protegemos de nós mesmos. Como sociedade, criamos os ladrões, os sequestradores e todos os outros burladores das leis. E aí, nos protegemos da nossa criação. Sádico, não é?
Infelizmente fazer o mais fácil sempre vira a melhor opção. Contratar uma empresa de segurança para a sua empresa é mais fácil do que dedicar 3% das receitas para ajuda social em um bairro deplorável.
E assim aumentamos a desigualdade, criamos uma cultura do medo e ainda alimentamos o perigo e suas trapaças. E os paranoicos vão ter muito mais situações para analisar.
terça-feira, 17 de julho de 2012
sexta-feira, 6 de julho de 2012
Sobre corrupção e cidadania.
Acabei de ler uma reportagem no Estado de S. Paulo que dizia que determinado partido cobrava uma taxa de 2,5 mil reais para que um filiado pudesse se tornar candidato a vereador na cidade de São Paulo.
Lendo os comentários dessa notícia no Facebook acabei notando que haviam tornado aquele fato em uma guerra política. Alheios aos acontecimentos restantes do mundo, as pessoas ali falavam e argumentavam porque os partidos que elas consideravam melhores estavam certos e porque os partidos que elas consideravam corruptos estavam errados. Não vou negar que ler aqueles diálogos me deprimiu bastante, visto que eu era um desses locutores há algum tempo.
Uma vez que uma discussão começa, seus atores devem buscar argumentos fortes e concisos para sustentar a sua voz. Ativamente e precisamente, o locutor deve seguir uma metodologia de diálogo para suportar os contra-argumentos e portanto, uma quebra de fluidez em seu "epitáfio". De certa forma, ao contrário dessa predicação, a discussão banal sobre a reportagem acontecia de forma canibalesca e sensitiva, e mais uma vez, demonstrava muitas falhas em nosso exercício de cidadania.
Claro que naquela notícia o centro da discussão era entre PSDB x PT. Aliás, essa batalha entre esses dois sujos partidos é a mais deprimente possível e sustentá-la, bem como qualquer outra discussão entre partidos e grupos políticos, é humilhante:
Primeiro, porque PSDB x PT não é nada mais nada menos do que ser humano x ser humano. Portanto, todos os partidos e pessoas são farinha do mesmo saco e que pertencem a mesma realidade social (cometendo os mesmos erros e acertando de forma semelhante)
Segundo, debates políticos acontecem pra ENRIQUECER as propostas e não pra DESESTRUTURAR as propostas um dos outros.
Terceiro, as redes sociais não são OBJETO de promoção política e sim um meio de propagação de REALIDADES SOCIAIS e de SOLUÇÕES pra elas. Essas soluções não tem em sua roupagem nomes de partidos, de políticos e nem financiamento do estado. Elas tem, em seu conceito, o APOIO da população. Porém, bem como vocês sabem, não é assim que funciona, já que se uma boa solução estiver em mãos de um partido pouco popular e descaracterizado ela não é válida.
Quarto, e por último, a FINALIDADE. Fico pensando qual seria a finalidade daqueles que discutem e batalham por partidos que estão tão longe deles mesmos, que são tão obscuros e que permitem e vivem num meio de tanta bagunça? Creio que DEFENDER e BATALHAR por grupos e pessoas seja natural do ser humano, mas vamos ser sensatos, algum partido brasileiro ou qualquer outra instituição política em algum momento da história deu motivo pra ter tal apoio incontestável de seus filiados e seguidores?
Além de estarmos cegamente apoiando algo que não temos certeza de como é, estamos OFENDENDO, na maioria das vezes, a opinião de outra pessoa, JUSTAMENTE por ela ter, nessa cegueira toda, outra visão de determinado fato, assunto ou ideia... Isso é absolutamente desprezível.
Podemos afirmar que a maioria dos 'militantes' dos partidos estão em contato mínimo com sua sede e pouco conhecem da verdadeira realidade do mesmo. Aqueles que defendem algo sem ver, aqueles que lutam por algo que não experimentaram, aqueles que, apesar de tudo, ofendem por um ideal escondido através de ternos e gravatas caros e de carros blindados. Esses, meus amigos, no momento em que se dizem indignados pelo Brasil, pela nossa realidade, por nossas fraquezas... Nesse momento, eles estão se considerando culpados. E não sabem disso.
O pior de tudo é ver que, no momento, a cegueira é mais popular que a razão e a cidadania. A ofensa ultrapassa a validez do consenso. A opinião beira ao insulto e a escolha, meus amigos, passa a ser assistida.
E o mais fácil de se ver e notar, mas que ninguém assume, é que aqueles que estão nas câmaras municipais, estaduais, que estão no senado e etc, ELES somos NÓS. E portanto, não é só lá que a limpeza tem de acontecer.
Lendo os comentários dessa notícia no Facebook acabei notando que haviam tornado aquele fato em uma guerra política. Alheios aos acontecimentos restantes do mundo, as pessoas ali falavam e argumentavam porque os partidos que elas consideravam melhores estavam certos e porque os partidos que elas consideravam corruptos estavam errados. Não vou negar que ler aqueles diálogos me deprimiu bastante, visto que eu era um desses locutores há algum tempo.
Uma vez que uma discussão começa, seus atores devem buscar argumentos fortes e concisos para sustentar a sua voz. Ativamente e precisamente, o locutor deve seguir uma metodologia de diálogo para suportar os contra-argumentos e portanto, uma quebra de fluidez em seu "epitáfio". De certa forma, ao contrário dessa predicação, a discussão banal sobre a reportagem acontecia de forma canibalesca e sensitiva, e mais uma vez, demonstrava muitas falhas em nosso exercício de cidadania.
Claro que naquela notícia o centro da discussão era entre PSDB x PT. Aliás, essa batalha entre esses dois sujos partidos é a mais deprimente possível e sustentá-la, bem como qualquer outra discussão entre partidos e grupos políticos, é humilhante:
Primeiro, porque PSDB x PT não é nada mais nada menos do que ser humano x ser humano. Portanto, todos os partidos e pessoas são farinha do mesmo saco e que pertencem a mesma realidade social (cometendo os mesmos erros e acertando de forma semelhante)
Segundo, debates políticos acontecem pra ENRIQUECER as propostas e não pra DESESTRUTURAR as propostas um dos outros.
Terceiro, as redes sociais não são OBJETO de promoção política e sim um meio de propagação de REALIDADES SOCIAIS e de SOLUÇÕES pra elas. Essas soluções não tem em sua roupagem nomes de partidos, de políticos e nem financiamento do estado. Elas tem, em seu conceito, o APOIO da população. Porém, bem como vocês sabem, não é assim que funciona, já que se uma boa solução estiver em mãos de um partido pouco popular e descaracterizado ela não é válida.
Quarto, e por último, a FINALIDADE. Fico pensando qual seria a finalidade daqueles que discutem e batalham por partidos que estão tão longe deles mesmos, que são tão obscuros e que permitem e vivem num meio de tanta bagunça? Creio que DEFENDER e BATALHAR por grupos e pessoas seja natural do ser humano, mas vamos ser sensatos, algum partido brasileiro ou qualquer outra instituição política em algum momento da história deu motivo pra ter tal apoio incontestável de seus filiados e seguidores?
Além de estarmos cegamente apoiando algo que não temos certeza de como é, estamos OFENDENDO, na maioria das vezes, a opinião de outra pessoa, JUSTAMENTE por ela ter, nessa cegueira toda, outra visão de determinado fato, assunto ou ideia... Isso é absolutamente desprezível.
Podemos afirmar que a maioria dos 'militantes' dos partidos estão em contato mínimo com sua sede e pouco conhecem da verdadeira realidade do mesmo. Aqueles que defendem algo sem ver, aqueles que lutam por algo que não experimentaram, aqueles que, apesar de tudo, ofendem por um ideal escondido através de ternos e gravatas caros e de carros blindados. Esses, meus amigos, no momento em que se dizem indignados pelo Brasil, pela nossa realidade, por nossas fraquezas... Nesse momento, eles estão se considerando culpados. E não sabem disso.
O pior de tudo é ver que, no momento, a cegueira é mais popular que a razão e a cidadania. A ofensa ultrapassa a validez do consenso. A opinião beira ao insulto e a escolha, meus amigos, passa a ser assistida.
E o mais fácil de se ver e notar, mas que ninguém assume, é que aqueles que estão nas câmaras municipais, estaduais, que estão no senado e etc, ELES somos NÓS. E portanto, não é só lá que a limpeza tem de acontecer.
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