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Domingo, dia 7 de Outubro, vão ocorrer as eleições municipais em todo o Brasil. Será o dia em que quase totalidade dos cidadãos maiores de 16 anos irão às ruas (literalmente) digitar dois números em uma máquina, um de cinco dígitos e outro de dois.
Convido você, leitor, a imaginar a movimentação e o clima desse domingo peculiar. Milhares de pessoas caminhando nas ruas com seus olhares brandos e iludidos, habituados com um domingo sem maiores objetivos de vida. Conforme você percorre o trajeto, vê, de forma quase pitoresca, policiais e autoridades garantindo a ordem e a segurança daquele dia. O Domingo Em Que O Não Merecedor Recebe O Poder.
Algumas pessoas rindo enquanto caminham, felizes, com um alto astral. Cheiro de churrasco vindo do quintal de uma casa próxima... O ambiente de alegria, de fraternidade, o dia em que será confirmada a democracia. Muita gente comemorando esse exercício maravilhoso. Aqueles que viveram em uma ditadura no momento se deleitam com essa liberdade tão límpida e deslumbrante.
Algumas pessoas tensas, sóbrias e com pressa. Estão preocupadas se o seu candidato irá vencer. Vencer a eleição. Se o seu candidato será eleito Prefeito ou Vereador de seu município.
Essas pessoas acordam cedo no Domingo de eleição. Essas pessoas consideram o Domingo Em Que O Não Merecedor Recebe O Poder como a passagem para uma vida melhor. Afinal, apoio custa caro.
Imaginou?
Esse cenário acontece a cada dois anos. E acho que deveria acontecer cada vez menos...
O cidadão decide o futuro do seu país, do seu município e da sua região por meio do voto..? Sinceramente, será que estamos sendo coerentes? Será o voto, realmente, a coisa mais importante que uma pessoa deve fazer na sociedade?
Vivemos em um meio hostil, onde as pessoas buscam estar acima das outras a todo momento. Escolhemos um lado porque nos vemos fracos demais para competir com todas as outras que já escolheram um para defender.
Como acreditar em uma pessoa se ela está sob pressão para se eleger?
A todo momento buscamos algo para participar, defender, apoiar, suportar e até mesmo nos enganar. Se existe algo em que o ser humano gosta de fazer é se surpreender: escolhemos ou fazemos algo hoje sem que pensemos nas consequências no futuro.
O maior exemplo disso é o aquecimento global. Hoje todos reclamamos do calor, mas continuamos a tomar banhos demorados e a deixar o computador e a luz do quarto ligados o dia inteiro. Claro que a hipocrisia é marca de nossa espécie, mas será que devemos colocar nela a culpa de sermos tão burros?
Não seria uma grande ilusão achar ou pensar que os candidatos (todos, sem uma única exceção) - aqueles que criam músicas deprimentes, campanhas mentirosas, frases de efeito nauseador, que botam a cara num debate teatral em que somos meros espectadores - irão resolver os nossos principais problemas?
Temos problemas tão simples que sequer são resolvidos por nós mesmos como espécie e botamos nossa fé em alguém que prefere criar um monte de peças publicitárias para vender uma "cara" ao invés de um documento anônimo que promova ideias revolucionárias e factíveis?
Não conseguimos nem nos unir para pelo menos "entender" realmente o processo eleitoral. Conseguimos, sim, nos separar para que, como um bando de hipócritas e orgulhosos, sejamos considerados mais ou menos intelectuais, mais ou menos inteligentes, mais ou menos "aculturados", enfim...
Sejamos inteligentes, dessa vez de verdade. Temos que entender que o voto é apenas a ponta do iceberg. É, sim, um grande exercício de democracia e deve ser levado MUITO a sério.
Mas, como população, devemos saber que o nosso papel na construção do futuro é muito mais importante do que simplesmente empurrar uma pessoa que sequer conhecemos pra um gabinete altamente visado e dizer: "Resolve isso aí, vai." Como cidadãos, devemos auxiliar todo o processo de comando social, de construção da vida no futuro e da nossa evolução como espécie.
Cobramos tanto a ética e a responsabilidade de pessoas que estão no poder mas não nos vigiamos com relação a nada de errado que fazemos. Por isso, amigo leitor, não trate a eleição como algo que vai mudar o rumo da sociedade. O que pode mudar o rumo do país, do município e do mundo somos nós. E isso não acontece no momento em que votamos, mas sim, no momento em que deixamos de considerar o voto como sendo o mais importante.
Grande abraço.
Raphael C Rosa
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