terça-feira, 17 de julho de 2012

Sobre paranoia.

É madrugada, você está abrindo o portão da sua casa quando percebe um motoqueiro em baixa velocidade com a mão no bolso se aproximando. 


Seu coração acelera.

Você fecha os vidros e tranca a porta.


O motoqueiro passa, tira o apito do bolso, e assovia. É o guardinha do bairro.


*


São nessas situações corriqueiras que percebemos o quanto somos paranoicos. Alguns dizem: e com motivo. Estão certos.


Chegamos em um ponto em que o perigo é constante e temos de aprender a conviver com ele. Em muitos casos, ele é tão comum que nos acostumamos demais com isso. Vejam só as casas com cercas elétricas, alarmes e cães de guarda. Tudo isso é encarado como normal e se alguém ousa dizer que é estranho e não é natural, essa pessoa tende a ser questionada.


Temos a seguinte situação: a pessoa estaciona o carro em uma via pública, tranca-o e vai curtir o momento com os amigos. Na volta, de madrugada, o dono do veículo percebe o vidro quebrado e vê que faltam objetos que o pertenciam lá dentro. 


A maioria das pessoas quando escutam essa situação tendem a dizer: mas porque você não estacionou em algum estacionamento? A via era movimentada? Porque o seu alarme não estava ligado? Tinha seguro? 


E uma das últimas perguntas: você fez o B.O.?


É interessante notar que, certo ou errado, o dono do veículo passa a ser culpado pelo roubo. Ele não tinha colocado o carro em estacionamento, não tinha alarme e a via não era movimentada. O cara fez tudo errado.


Sim, fez mesmo. E até anormal que faça. O normal é existir ladrões que roubam da mesma maneira que nuvens provocam chuvas. Sequestradores existem da mesma maneira que o plantio das sementes. Tudo de ruim ficou muito natural. Tudo ficou comum. E o errado é quem não se protege. 


Lutar contra o perigoso passou a ser incomum. O comum é se proteger, cada vez mais, para que o perigo não te 'escolha'. Colocamos cercas elétricas nas nossas casas, gastamos pra isso, e na hora de ajudar um ex-presidiário a conseguir um emprego nos recusamos. Contratamos seguranças e porteiros para os prédios mas não levantamos uma faixa sequer para melhorar o ensino técnico na cidade e região para que pessoas de baixa renda tenham uma capacitação para um emprego razoável. 


No fim das contas, nos protegemos de nós mesmos. Como sociedade, criamos os ladrões, os sequestradores e todos os outros burladores das leis. E aí, nos protegemos da nossa criação. Sádico, não é?


Infelizmente fazer o mais fácil sempre vira a melhor opção. Contratar uma empresa de segurança para a sua empresa é mais fácil do que dedicar 3% das receitas para ajuda social em um bairro deplorável.


E assim aumentamos a desigualdade, criamos uma cultura do medo e ainda alimentamos o perigo e suas trapaças. E os paranoicos vão ter muito mais situações para analisar.


2 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. É verdade....vivemos na sociedade do medo. Medo dos ladrões, dos corruptos, dos terroristas.... E tudo isso é planejado, estamos sendo controlados para não podermos pensar no óbvio, que podemos ter livre arbítrio, que podemos falar o que quisermos.
    Hoje quem diz a verdade, é honesto, é justo, fala o que pensa da sociedade é considerado louco.

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