É globalizando os 'fatos' que democratizamos a informação?
Essa pergunta, por mais incrível que pareça, é muito difícil de responder. Uma vez que temos milhões de atrativos reais e virtuais, através de canais de todos os tipos, que geram trajetórias de disseminação significantemente diferentes e talvez com resultados pouco semelhantes, a nossa mente procura definir qual a melhor fonte e quanto se deve dar atenção a ela. Dessa maneira, procuramos nos orientar quanto a nosso meio midiático, por assim dizer. Por exemplo, um indivíduo adota a rede social "facebook" porque seus amigos também adotaram e escuta a música do Michel Teló pois é sucesso no mundo inteiro.
A situação de caos começa quando a imprensa globaliza fatos desinteressantes para a evolução de nossa espécie e, automaticamente, por ser vista por milhões de pessoas, passa a ser algo 'interessante'. Isso acontece, é fato. Mas não existe explicação lógica para tal transformação instantânea.
Podemos, nesse caso, citar o caso da Luiza (que estava no Canadá, e é muito provável que você saiba do que eu estou falando), que foi veiculada no Brasil todo por ter sido sucesso no twitter. Nesse caso, podem dizer que na verdade não foi a imprensa que gerou tal difusão, mas sim o twitter, que começou com essa 'bomba' através dos tradicionais RT's e das interessantes #hashtags. No entanto, a grosso modo, a maioria das pessoas comuns, que trabalham o dia todo no Brasil, ficaram sabendo do fato através da imprensa moderna televisiva, que abordou sobre o fato simplesmente porque foi sucesso em uma rede social.
A ligação lógica pra isso tudo é simples. Se um fato ou uma informação foi interessante e se tornou famosa pela internet, existem chances muito significativas de que esse mesmo fato se torne famoso entre as pessoas que assistem TV. Dessa forma, a sociedade virtual, ao retuitar ou tuitar algo desinteressante, a imprensa televisiva pode considerar isso, automaticamente, algo gerador de 'frisson' (que significa atração e participação da massa social em algo).
A massa, como sabemos, não está no twitter. Sabemos que um pequeno grupo de pessoas, se insistentes, conseguem fazer uma #hashtag entrar para os trending topics do twitter em alguns instantes. Isso demonstra que, as vezes, somos 'obrigados' a ver e participar de algo totalmente insignificante porque um 'pequeno' grupo de pessoas riram, leram e compartilharam algo.
Voltando ao universo dos exemplos, podemos citar o jornalismo esportivo e os paparazzi. No primeiro caso, vemos a todo momento jornalistas veicularem sobre a vida extra campo dos jogadores e de pessoas no meio do futebol: "Adriano bate o carro" ou "Ronaldinho Gaúcho vai a show no RJ". Manchetes totalmente insignificantes. No caso dos paparazzi: "Brad Pitt escorrega em shopping" ou "Carolina Dickman faz compras no Leblon".
Essas manchetes chegam a dar nojo em algumas pessoas e necessariamente, a mim. O problema disso tudo é que a mídia e a imprensa é o reflexo de nós. Ou seja, essas manchetes só estão lá pois as pessoas clicam, leem e compartilham. Todos sabemos que um jornal tem como objetivo vender sua informação. Para isso, desenvolvem um certo tipo de pesquisa, sobre o que dá mais polêmica e é mais atrativo para as pessoas. Para perceber isso, é só visitar qualquer site de notícias a qualquer hora de qualquer dia de qualquer semana e de qualquer ano.
O que ajuda a imprensa a alimentar toda esse ciclo virtuoso, além de nossa atenção, é a tendência de que as pessoas tem de equilíbrio e de desequilíbrio. No caso, podemos perceber que manchetes citando a corrupção de um determinado partido (seja ele qualquer um de grande popularidade) é lida e compartilhada tanto pelos defensores daquele fato assim como por aqueles que não concordam ou não acreditam nela. Nesse caso, a imprensa ganha em dobro. E como a imprensa é 'privada' e tem como objetivo lucrar, é lógico pensar que tenha mais interesse em fatos que gerem esse tipo de situação do que em fatos que não geram polêmica.
Além de tudo isso, temos ainda a consciência coletiva, que é aquele pensamento que é compartilhado por todos, ou seja, o senso comum. O senso comum é uma grande ferramenta de posse de atenção. As pessoas gostam de saber que estão certas e o senso comum as dá poder para tal. Quando um jornal de efetiva audiência veicula que, por exemplo, os militares norte-americanos ainda não saíram do Iraque, a tendência é que (mesmo sem explícita demonstração) as pessoas se posicionem contra, o que torna a notícia um senso comum. Nesse caso, é "horrível" que aqueles soldados continuem lá e que devem ir embora o mais rápido possível. De fato, a maioria da população toma posse da informação que é veiculada no jornal e não pesquisa, de fato, o que está acontecendo lá. Sei que o exemplo foi um pouco ruim, mas na maioria dos casos a imprensa demonstra ser parcial e errônea ao apurar certas situações. No caso do Pinheirinho, por exemplo, deixou de mostrar moradores sendo baleados pela polícia e preferiu tomar uma posição mais equilibrada diante de tantos lobistas que financiam a emissora.
O que acontece, então, é que a maioria da população (a que detém o poder de escolher quem controla país, cidade e estado), incorpora o senso comum veiculado pelo jornal. Nesse caso, todos compartilham de uma mesma posição (que os militares devem sair do Iraque) sendo que se cada um pesquisasse individualmente sobre o caso, a chance de possuírem posições divergentes seria muito maior.
Voltando a pergunta inicial, "É globalizando os 'fatos' que democratizamos a informação?"
De fato, não.
Globalizar fatos que são fatos apenas para alguns grupos é alienação da população. Fatos podem ser fatos credíveis apenas por uma parte da população (assim como vimos no twitter) e se veiculados na TV disseminam a posição de uma minoria, até então, para o que pode se tornar popular.
Um exemplo: um grupo de cientistas, em alguma universidade compartilhada por vários países, detém a informação de que o sal do mar faz mal a pele e pode causar carcinoma. (a universidade, vamos supor, é compartilhada por Peru, Guatemala e Bolívia)
Se veiculado na imprensa, esse fato, constatado por essa fonte, pode ou não se tornar senso comum. O que faz o fato, de certa forma, se tornar senso comum, é a MANEIRA como a imprensa o faz. Se a imprensa veicula o fato querendo o tornar popular, a reportagem terá maior tempo de duração, as imagens serão absolutamente credíveis (pesquisadores em laboratórios e muitos números de estatística) e além de tudo, com uma observação dos âncoras do jornal, alertando a população.
Manchete: "Pesquisadores de vários países, em grande Universidade compartilhada, determinam que o sal contido na água do mar é grande causador de câncer de pele no mundo."
Se a imprensa não quisesse tornar o fato popular, teria algumas opções: 1) Não falar sobre o acontecido na TV. 2) Se por obrigação ou por lei do audiovisual brasileiro, o jornal tivesse de mostrar, mostraria muito mal, com uma reportagem de curta duração, com repórteres novatos e sem muitos números estatísticos credíveis e no fim com nenhuma observação dos âncoras.
Manchete: "Universidade dividida por Peru, Bolívia e Guatemala acredita que água do mar pode causar mal a saúde"
Temos de considerar que a edição dos jornais é o que mais nos possibilita notar o quanto estamos sendo moldados por uma pequena parte de nós mesmos. De fato, estamos sendo alienados. O que nos resta, a partir disso, é começar a darmos importância ao que realmente importa, pesquisando e re-pesquisando, por nós mesmos, verdades universais do senso comum. Precisamos confiar mais nos nossos instintos e deixar de lado a opinião compartilhada e fácil de ser digerida do meio em que vivemos.
Devemos parar de compartilhar textos de outras pessoas e começarmos a criar nosso próprio conteúdo. Afinal, o errado não é ler e absorver algo, é compartilhar algo que não foi, efetivamente, seu. Algumas vezes, compartilhamos coisas que não concordamos totalmente, mas o fazemos por mostrar que obtemos certa 'análise social' ou 'visão crítica', sendo que isso é, de fato, preguiça ou incapacidade argumentativa de opinar sobre.
Não compartilhe esse texto. Comente sobre. Todos ganhamos com isso.
Grande abraço!
Raphael
Thats our society!
ResponderExcluirGostei muito do texto! Acho que devemos refletir e repensar todas as informações que chegam e como chegam. Você está certo Raphael!
ResponderExcluirInteressante!
ResponderExcluir